Durante décadas, o vinho ajudou a construir a imagem do Chile junto ao consumidor brasileiro. Agora, outro produto busca ocupar esse espaço: os queijos. O crescimento do mercado brasileiro de queijos abre espaço para que novas origens disputem a atenção dos consumidores.
Essa estratégia encontra um cenário particularmente favorável. O amadurecimento do consumo, a valorização dos produtos de origem e a profissionalização da cadeia láctea transformaram o país em um destino cada vez mais atrativo para empresas e cooperativas internacionais.
Entre os países que passaram a enxergar esse potencial está o Chile, que busca ampliar sua presença no Brasil apostando em uma categoria capaz de repetir, ao menos em parte, a trajetória de sucesso construída pelos vinhos.
Por que o mercado brasileiro de queijos entrou no radar
Nesse contexto, o interesse internacional acompanha uma mudança estrutural no mercado do Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Queijo (ABIQ), a produção nacional alcançou cerca de 1,46 milhão de toneladas em 2024, crescimento de aproximadamente 6% em relação ao ano anterior.
O consumo per capita também segue em expansão e gira em torno de 7 kg por habitante ao ano, com expectativa de fortalecimento ao longo desta década. Mais do que crescer em volume, o mercado passou a movimentar conhecimento, negócios e uma cultura queijeira cada vez mais consolidada.
O fortalecimento da cultura queijeira também se reflete em eventos especializados. A quarta edição do Mundial do Queijo Brasil, realizada em São Paulo, reuniu cerca de 2 mil queijos e produtos lácteos de mais de 30 países e projetou uma movimentação de aproximadamente R$80 milhões em negócios diretos e indiretos.

Para Débora Pereira, idealizadora e presidente do Mundial do Queijo Brasil, o evento representa uma transformação mais ampla da cadeia produtiva.
“A SerTãoBras vem consolidando uma rede nacional de formação, intercâmbio e oportunidades de mercado para produtores, comerciantes e especialistas. O Mundial é hoje a principal vitrine neste trabalho e é uma plataforma concreta de visibilidade, qualificação e geração de negócios para a cadeia do queijo brasileiro.”
Na prática, esse ambiente de profissionalização ajuda a explicar por que o mercado brasileiro de queijos passou a atrair investimentos e empresas interessadas em categorias de maior valor agregado.
Quando o mercado chama atenção
Esse cenário também passou a atrair grandes grupos internacionais. Nos últimos anos, o setor vem registrando movimentos de consolidação impulsionados pelo potencial de amadurecimento do consumo.
Um dos exemplos mais recentes foi a aquisição da Quatá Alimentos pela francesa Savencia Fromage & Dairy, responsável por marcas como Polenghi. A operação amplia a presença da companhia no país justamente em um momento de fortalecimento do segmento de queijos.
“Nossa estratégia é mostrar como a tradição e a qualidade da Savencia, aliadas a um portfólio que vai do consumo diário aos momentos especiais, potencializam maior giro e rentabilidade na gôndola”, afirma Augusto Lemos, CEO da Savencia Brasil.
Mais do que uma operação empresarial, o investimento reflete uma tendência: o consumidor nacional demonstra interesse crescente por opções que combinam qualidade, origem e diversidade de sabores.
A aposta chilena vai além do vinho
O Chile vê nesse cenário uma oportunidade estratégica. O Brasil é hoje seu principal parceiro comercial na América Latina e o quarto maior destino das exportações globais chilenas.
Segundo o ProChile, as exportações para o mercado brasileiro cresceram cerca de 53% nos últimos seis anos. O avanço foi impulsionado pela diversificação da oferta e pelo interesse dos consumidores por produtos premium.
Essa estratégia se materializa em um portfólio que vai além dos vinhos. Durante a APAS Show 2026, a Colun, maior cooperativa de laticínios do Chile, apresentou ao mercado brasileiro produtos como leite em pó, manteiga, doce de leite e queijos como Gouda, Parmesão e Mantecoso. A apresentação foi conduzida por Sebastián Vargas, representante da cooperativa no evento.


Fundada em 1949, a cooperativa responde por mais de 33% do leite fresco produzido no Chile e reúne centenas de produtores nas regiões de Los Ríos e Los Lagos, no sul do país.
Mais do que ampliar as exportações, a estratégia chilena busca construir para seus queijos uma identidade semelhante àquela conquistada pelos vinhos nas últimas décadas.
Exportar uma identidade

A aposta chilena está baseada em atributos que vão além do produto. Origem, território, sustentabilidade e cooperativismo aparecem como pilares da estratégia defendida pela Federação Nacional dos Produtores de Leite do Chile (Fedeleche). Foram esses mesmos atributos que, décadas atrás, ajudaram a consolidar a reputação internacional dos vinhos chilenos.
Temas como inovação, comércio internacional, sucessão geracional e produção sustentável têm ocupado espaço central nas discussões do setor, enquanto empresas como a Colun reforçam uma narrativa baseada no desenvolvimento regional e na valorização da matéria-prima.
Assim como aconteceu com os vinhos, o objetivo não é apenas exportar alimentos, mas construir uma identidade capaz de fazer com que o consumidor reconheça, também nos queijos, a origem chilena como um selo de qualidade.
O próximo capítulo dessa história
Há pouco mais de duas décadas, poucos brasileiros associavam o Chile a muito mais do que uma origem promissora para vinhos. Hoje, seus rótulos fazem parte do cotidiano de supermercados, restaurantes e adegas.
Ainda é cedo para afirmar se os queijos chilenos percorrerão a mesma trajetória. Mas uma transformação já parece evidente: o nosso consumidor está mais curioso, mais informado e cada vez mais interessado na origem dos alimentos.
Se os vinhos abriram as portas, os queijos podem inaugurar um novo capítulo da relação gastronômica entre Brasil e Chile.

