Anthony Bourdain costumava defender que a comida nunca se limita ao que está no prato. Ela carrega histórias, territórios, tradições e pessoas. A ideia ajuda a compreender a proposta da Casa Aberta, encontro anual promovido pela importadora La Pastina que transforma seu centro de distribuição, no Ipiranga, em um espaço dedicado à descoberta gastronômica.
Por algumas horas, o ambiente responsável por abastecer 100% dos CEPs brasileiros deixa a logística em segundo plano para receber degustações, demonstrações culinárias e conversas sobre diferentes culturas alimentares.
Ao revelar as histórias por trás de ingredientes, vinhos e tradições gastronômicas, o evento mostra como informação e contexto ajudam a aproximar esse universo do cotidiano dos brasileiros.
Como o vinho busca novos públicos
Entre mais de 100 rótulos distribuídos por 27 marcas, o encontro evidenciou algumas das mudanças que vêm redesenhando o universo do vinho. Produção orgânica, certificações veganas, menor teor alcoólico e comunicação mais acessível apareceram como reflexo de um mercado atento aos novos hábitos de consumo.
Nesse cenário, um dos destaques foi a chilena Emiliana, reconhecida como uma das maiores vinícolas orgânicas e biodinâmicas do mundo. Entre os rótulos apresentados, estava o Adobe Low Alcohol Sauvignon Blanc 2025, com 8% de graduação alcoólica, refletindo a crescente busca por opções mais leves.
Esse movimento também aparecia no Smash, desenvolvido para dialogar com o público por meio de uma linguagem mais descontraída. Já o Animalia Orange Wine chamava atenção por introduzir uma categoria ainda pouco conhecida por muitos brasileiros: os vinhos laranja.


A seleção incluía ainda o Lolita, da portuguesa Vicente Faria, produzido na região do Douro, além de outros rótulos veganos e degustações de Jerez, um dos fortificados mais tradicionais da Espanha.
Os rótulos reunidos na Casa Aberta refletiam um mercado em transformação, no qual inovação, diversidade de estilos e novas formas de comunicação ampliam as portas de entrada para a cultura do vinho.
Da prateleira ao prato
As duas paelleras comandadas pelo chef Diego Carrilho eram um dos pontos de maior concentração de público na Casa Aberta.
Entre celulares erguidos, olhos atentos e o aroma da paella que se espalhava pelo ambiente, o espaço parecia pequeno para tanta curiosidade. Ao redor dos fogões, por sua vez, os visitantes acompanhavam a preparação de receitas elaboradas com produtos do portfólio da importadora.


Entre elas estavam o risoto de açafrão com ragu de bochecha, a massa à puttanesca, o pernil com pimentões e a polenta mole com molho de tomate.
Símbolo de uma cozinha afetiva e familiar, a polenta dividia espaço com ingredientes como o escargot francês, ilustrando como tradições gastronômicas de diferentes origens podem compartilhar a mesma mesa.
Além de degustar os pratos, o público observava técnicas, combinações e formas de utilização dos ingredientes. Assim, o que antes aparecia nas prateleiras ou nos estandes ganhava aplicação prática diante dos olhos, tornando sabores e referências gastronômicas mais familiares.
Por trás dos sabores
Dentre as diversas estações gastronômicas da Casa Aberta La Pastina, uma cena chamava atenção. Diante dos convidados, Letícia Loiola conduzia o corte de jamón com movimentos precisos, resultado de anos dedicados a um ofício ainda raro no Brasil.
Primeira profissional especializada no corte de jamón no país e atualmente a única mulher atuando na função, Letícia representava um dos muitos rostos por trás da experiência gastronômica. Sua presença lembrava que ingredientes não chegam sozinhos à mesa.
Enquanto isso, na francesa Beaufor, a responsável pela marca conduzia os visitantes por um percurso de degustação, sugerindo começar pelas maioneses e mostardas mais suaves antes de avançar para sabores mais intensos.


Já na degustação dos azeites da Família Zuccardi, o convite era comparar diferentes perfis sensoriais, observando intensidade, aroma e persistência.
Em comum, essas experiências mostravam que a gastronomia também se constrói por meio da troca de conhecimento. Quando técnicas, histórias e formas de consumo são compartilhadas, ingredientes deixam de parecer distantes e passam a integrar o repertório gastronômico do público.
Acesso como ingrediente
Contudo, poucos ingredientes simbolizam tanto a ideia de gastronomia sofisticada quanto o escargot francês. Durante décadas associado à alta cozinha, ele ajuda a ilustrar como itens antes percebidos como distantes vêm encontrando novos caminhos para chegar à mesa dos brasileiros.
Colhidos manualmente na França e comercializados já cozidos, os escargots são apresentados no e-commerce da empresa com informações sobre origem, preparo e formas de consumo.


A mesma lógica se estende a outras categorias do portfólio, como o açafrão em estigma e as conservas espanholas da Amanida, apresentadas com informações sobre origem, características e formas de consumo.
Nesse processo, ingredientes tradicionalmente associados a nichos especializados tornam-se mais próximos do consumidor e transformam a curiosidade em ponto de partida para novas descobertas à mesa.
Muito além da importação
Fundada por Vicente La Pastina em 1947, a empresa foi consolidada sob a liderança de Celso La Pastina e hoje é conduzida pela terceira geração da família, representada por Juliana La Pastina.
Especialmente após a pandemia, o grupo ampliou sua atuação para além da importação, investindo em e-commerce, produção de conteúdo, hospitalidade e varejo especializado.
A estratégia busca aproximar o consumidor não apenas dos produtos, mas também do universo cultural que os acompanha, por meio de descrições, harmonizações, sugestões de consumo e conteúdos educativos.
Na prática, essa atuação também se estende à Casa La Pastina, na Rua Oscar Freire, concebida como um espaço de experiências que reúne diferentes expressões da gastronomia. O mesmo movimento alcança o universo dos destilados por meio da Inspirits, divisão premium do grupo dedicada à curadoria de marcas internacionais.


Da logística à mesa
Ao final da visita, o açafrão permanecia uma das especiarias mais valorizadas do mundo, o vinho seguia carregando séculos de tradição e os ingredientes continuavam trazendo consigo as histórias de suas origens.
O que mudava era a forma como esses produtos eram apresentados ao público. Entre cozinhas ao vivo, degustações guiadas e conteúdos educativos, a Casa Aberta mostrou que informação também pode ser um ingrediente da gastronomia.
Portanto, a Casa Aberta La Pastina não democratiza a gastronomia por si só. Mas evidencia alguns dos caminhos que tornam esse processo possível.

