O bacalhau não é brasileiro, não é barato e tampouco faz parte das nossas águas. Ainda assim, ocupa um lugar de respeito na mesa do país.
Mesmo disponível o ano inteiro, carrega o peso — e o preço — da ocasião. Isso fica ainda mais evidente na Páscoa, quando a tradição cristã pede a abstinência de carne.
Assim, o lugar do bacalhau no Brasil não se explica pela origem. Ele se sustenta por uma construção cultural consolidada ao longo dos séculos pela influência portuguesa. Hoje, também reflete sua relevância econômica como produto estratégico para a Noruega no mercado brasileiro.
Entre origem e construção cultural
O bacalhau consumido no Brasil vem, em sua maioria, do Atlântico Norte. Entre as espécies, destaca-se o Gadus morhua, conhecido pela textura firme e pelas lascas altas.
Ao longo do tempo, a tradição portuguesa incorporou o peixe ao repertório alimentar brasileiro. Isso ocorre, sobretudo, em datas religiosas.
Atualmente, Portugal responde por cerca de 20% do consumo mundial de bacalhau. Além disso, lidera o consumo per capita, com aproximadamente 15 kg por pessoa ao ano. O Brasil aparece logo em seguida.
Portanto, embora o pescado seja norueguês, a tradição é portuguesa. Foi essa construção que transformou o bacalhau em símbolo à mesa brasileira.

Um mercado estratégico — e sensível ao preço
Hoje, o Brasil é um dos principais mercados para o bacalhau norueguês. Em 2025, as exportações somaram cerca de US$ 107 milhões e quase 15 mil toneladas, segundo o Conselho Norueguês da Pesca (CNP).
“O Brasil é um mercado estratégico para a Noruega. O bacalhau continua sendo o principal produto exportado e possui uma conexão cultural muito forte com o consumidor brasileiro, especialmente em datas comemorativas”, afirma Randi Bolstad, diretora do CNP no Brasil.
No entanto, esse protagonismo convive com um fator limitante: o preço. Como é importado, o bacalhau sofre impacto direto do dólar, dos custos logísticos e das tarifas de importação.
Por isso, o consumo ainda se concentra em ocasiões específicas. Na prática, trata-se de um produto desejado, mas distante do cotidiano.

Comércio, geopolítica e futuro do bacalhau
Esse cenário tende a mudar com o avanço das relações comerciais. O acordo entre o Mercosul e a EFTA, assinado em setembro de 2025, cria uma zona econômica de cerca de 290 milhões de consumidores. Além disso, reúne um PIB superior a US$ 4 trilhões, segundo o MDIC.
De acordo com projeções oficiais, os impactos devem aparecer até 2044. O acordo pode gerar aumento de R$ 2,69 bilhões no PIB. Também deve impulsionar investimentos e ampliar exportações e importações.
“Com a plena entrada em vigor do acordo comercial, identificamos espaço para ampliar ainda mais a presença dos pescados noruegueses no Brasil”, afirma Randi Bolstad. Segundo ela, há oportunidades para outros produtos, como caranguejo-real, mexilhões, vieiras, salmão e arenque.
Além disso, em um cenário global marcado por tensões comerciais, acordos como esse garantem maior estabilidade e acesso a mercados.

Entre símbolo e consumo
Ainda assim, o consumo revela um paradoxo. O bacalhau é amplamente desejado, mas não faz parte do cotidiano.
Ao mesmo tempo, origem, qualidade e método de conservação sustentam seu valor. Por isso, o produto segue relevante mesmo com preço elevado.
Nesse contexto, até a embalagem comunica valor. As tradicionais caixas de madeira reforçam a ideia de autenticidade e tradição.
Por outro lado, há caminhos para ampliar o acesso. Além do Gadus morhua, espécies como saithe, ling e zarbo apresentam preços mais acessíveis. Assim, ampliam as possibilidades de consumo no dia a dia.

Quando o bacalhau encontra o Brasil contemporâneo
Se por um lado o consumo ainda carrega tradição, por outro, a cozinha brasileira começa a reposicionar o ingrediente.
Em um jantar no Sororoca, o chef Thiago Castanho propôs uma leitura contemporânea do bacalhau. Ele conectou o peixe a ingredientes e técnicas brasileiras.
O resultado não foi ruptura. Pelo contrário, criou um diálogo coeso e, em alguns momentos, surpreendente.
“Ao pensar nesse menu, quis trazer ingredientes que fazem parte da nossa identidade. As raízes amazônicas aparecem naturalmente na minha cozinha e ajudam a criar um diálogo interessante com o Bacalhau da Noruega. A ideia foi usar essas brasilidades para construir pratos que conectem tradição e criatividade”, afirma o chef.
Foi nas entradas que ele mais inovou. Na salada, o bacalhau aparece com feijão-manteiguinha, quiabo e hortelã. Assim, ganha frescor e leveza.
Já no bao, surge empanado em tempurá. O pão, tingido de roxo pelo açaí, traz identidade visual. Além disso, leva sweet chilli, picles de chuchu e coentro, equilibrando crocância, acidez e untuosidade.
Na pamonha com moqueca de saithe, o prato ganha força simbólica. Nesse momento, o bacalhau parece se integrar naturalmente às referências brasileiras.
Por fim, o lombo com pil pil de jambu evidencia a qualidade do peixe. Ainda assim, o ponto de dessalga poderia ser mais equilibrado.
Mais do que releitura, o jantar aponta um caminho. O bacalhau começa a deixar de ser apenas tradição e passa a ocupar espaço como ingrediente contemporâneo.

Entre tradição e reinvenção
No Brasil, o bacalhau não é apenas consumido — é construído.Ao longo do tempo, consolidou-se como símbolo. Agora, começa também a se reinventar.
Os brasileiros amam o bacalhau não apenas por suas qualidades gastronômicas, mas pela forma como o incorporou à sua cultura.


