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“A Tica não é uma pizzaria, é uma casa” restaurante no Itaim celebra primeiro ano com faturamento e legião de fãs

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Bruno Cavalcanti

Pizza Castelões, da Tica Pizzaria | Foto: Divulgação
Pizza Castelões, da Tica Pizzaria | Foto: Divulgação

Existe uma velha italiana rabugenta que mora em uma pequena casa numa rua agitada do Itaim Bibi. Pelo menos, é o que dizem. Ela escolhe o papel de parede, decide o tamanho do salão, dita as regras da cozinha e, se algo sai do lugar, não perdoa. Essa personagem (meio lenda, meio dispositivo narrativo) atende pelo nome de Tica e é o ponto de partida para entender uma pizzaria que em um ano construiu identidade rara na cena paulistana.

A Tica Pizza não nasceu como um negócio convencional. Mas como uma história. E, como toda boa história, ela começa antes mesmo da abertura das portas. “A Tica não é uma pizzaria, ela é uma casa”, resume Caio Soares, idealizador do projeto. “Eu nunca tinha visto um lugar que fosse de fato uma casa que virou restaurante, não só um cenário que imita isso.”

A ideia, no entanto, veio do percurso. Soares cresceu dentro de pizzarias. Filho de dono de casas tradicionais de delivery, passou a infância entre fornos e massas. “Eu trabalho em pizzaria desde que eu nasci. Desde os oito anos eu já estava lá com meu pai”, diz.

Mas a Tica surge justamente como ruptura. Ao abrir o próprio negócio, decidiu se afastar da pizza paulistana tradicional de bordas recheadas e coberturas abundantes, para investir em discos individuais de estilo napolitano, com fermentação longa e foco em técnica.

O chef Caio Soares | Foto: Divulgação
O chef Caio Soares | Foto: Divulgação

O movimento, entretanto, não foi imediato. “Eu queria abrir uma hamburgueria”, conta. “Mas percebi que pizza era onde eu tinha mais repertório, mais segurança.” O ponto físico também ajudou a moldar o conceito. Depois de anos procurando imóvel, o chef encontrou um espaço que não se encaixava em nenhuma das ideias que tinha. “Eu aluguei e depois pensei: ‘agora vou ter que criar alguma coisa nova’”, lembra.

A construção do espaço é parte fundamental da narrativa, onde o salão, que referencia imóveis antigos, foi erguido quase do zero em parceria com o pai, experiente em construção civil. “A gente fez tudo: parede, escada, forno, armário. Tudo com as próprias mãos.”

Esse esforço artesanal ecoa na cozinha. A massa descansa por até 48 horas, o preparo é manual e a escolha de insumos privilegia pequenos produtores. “Dá muito mais trabalho, mas faz parte do que a gente quer entregar”, diz. O resultado aparece no prato — ou na ausência dele. As pizzas chegam à mesa sem talheres, acompanhadas por uma tesoura. O gesto, que à primeira vista parece curioso, é central na experiência.

“Eu queria um ponto de contato real com a marca. A hora que você pega a tesoura e corta, você está participando daquilo.” A escolha também dialoga com referências técnicas. Em alguns casos na Itália, pizzaiolos utilizam tesouras para evidenciar os alvéolos da massa, um sinal de boa fermentação.

Mas, na Tica, o gesto ganha outro significado. É um convite à participação. Ao cortar a própria pizza, o cliente deixa de ser espectador e passa a integrar a narrativa da casa. “Eu quero que a pessoa sinta que está fazendo parte da história”, diz.

Tica Pizzaria celebra primeiro ano | Foto: Divulgação
Tica Pizzaria celebra primeiro ano | Foto: Divulgação

Curiosamente, nem todos os olhares externos captam essa camada narrativa. Em crítica recente, a casa foi descrita como um salão simples, quase despretensioso, onde a história da “vecchia” parece secundária diante da qualidade da pizza. E, de fato, a pizza sustenta o discurso. A massa leve, elástica e bem fermentada, com bordas aeradas e ingredientes equilibrados, colocou a Tica rapidamente no radar da cidade.

Em um cenário competitivo, não é trivial. A pizza napolitana já está consolidada em São Paulo, mas ainda abre espaço para propostas com identidade. “Eu não queria competir por preço. Eu queria trabalhar com propósito”, resume o chef.

Esse propósito também orienta as decisões futuras. Em apenas um ano, a casa cresceu acima do esperado, com recordes sucessivos de faturamento e um público cada vez mais fiel. “Se eu olhasse friamente os números, diria que foi um primeiro ano espetacular”, afirma. Mas o caminho trouxe percalços, como a juventude (Soares abriu o negócio aos 22 anos), que lhe rendeu desafios emocionais e operacionais. “Foi muito difícil lidar com a insegurança. Eu surtei várias vezes.”

Entre os obstáculos, o mais desafiador se provou o marketing. “Eu gosto de contar história, mas não sabia como levar isso para as pessoas”, diz. A virada veio com ajustes na comunicação e maior presença digital, algo que ainda considera em construção.

Agora, casa estabilizada, o próximo passo é ampliar a operação. A ideia é transformar a Tica em uma espécie de trattoria contemporânea, com serviço também durante o dia e novos itens no cardápio, incluindo drinks. No fundo, porém, tudo continua orbitando a mesma ideia inicial de contar uma história. Mesmo que ela não exista de fato. Mesmo que a velha nunca tenha existido. Ou talvez exista, na medida em que alguém acredita nela.

“Para mim, o auge seria a pessoa sentir que está dentro de uma história viva e que ela está ajudando a escrever isso.”

SERVIÇO

Qua. a dom., das 18h às 23h. Endereço: r. Clodomiro Amazonas, 1216, Itaim Bibi, região sul. Tel.: (11) 91702-4543. @ticapizza

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